O passe espírita cura?
Adilson Gomes

O estudo dos recursos da terapêutica complementar espírita faz parte do programa do módulo Fenomenologia Espírita.

Sempre que esse tema é colocado em pauta para discussões, vêm à tona questões importantes relativas às práticas e aos efeitos orgânicos e espirituais do passe. No ESDE, não poderia ser diferente.

Como se trata de recurso conhecido e bastante aplicado nas casas espíritas, existe a tendência de transformar o passe em serviço de rotina prestado mecanicamente às pessoas que buscam esse valioso auxílio espiritual. Tanto assistidos quanto médiuns passistas esquecem-se, muitas vezes, de que o passe foi incluído nas práticas espíritas como um de seus recursos auxiliares. É portanto um meio e não a finalidade do Espiritismo. Cabe, pois, refletir sobre essa problemática.

A maioria das pessoas por desconhecer os fundamentos da Doutrina Espírita vai ao centro espírita em busca de melhoria de seus transtornos mentais, psicológicos ou espirituais. Da mesma forma, espera “curas” e soluções para seus males físicos e materiais. Conquanto justificável, em princípio, o ato de tomar passes pode tornar-se um hábito, na maior parte dos casos, sem haver real necessidade. Parece provável que isso ocorra pela falta de conhecimento dos elementos envolvidos no mecanismo do passe, os seus efeitos e aplicações. 

Os verdadeiros adeptos devem conhecer a doutrina que abraçaram, não se deixando levar pelos fenômenos em detrimento do conteúdo espírita. No estudo sistemático, aprendemos a discernir o que é e não é Espiritismo, corrigindo interpretações pessoais e identificando conceitos errôneos e práticas equivocadas. Passa-se a compreender melhor as relações entre o plano espiritual e o material, com a investigação das interações dos recursos fluídicos-vitais do médium passista e da espiritualidade com os do assistido.

Para ilustrar essa linha de pensamento, como a transferência de fluidos é feita de perispírito para perispírito, torna-se evidente a desnecessidade de tocar-se diretamente no corpo do assistido durante a aplicação do passe, “para se obter melhores resultados”. Esta constatação é particularmente relevante. Basta lembrar que já foi suficientemente comprovado por interessantes estudos médicos-espíritas que a sensação de bem-estar físico e espiritual, alcançada após o passe, é decorrente da influência célula a célula do corpo espiritual ao agir sobre o corpo físico, e não o inverso. 

Essas e outras matérias constam do programa de estudos do ESDE. Ao longo de todo um semestre, analisa-se as conexões mais profundas que envolvem a mediunidade curativa. "Este gênero de mediunidade consiste, principalmente, no dom que possuem certas pessoas de curar pelo simples toque, pelo olhar, mesmo por um gesto, sem o uso de qualquer medicação". (Livro dos Médiuns, Cap. XIV, item 175, Segunda parte) Embora limitações de espaço impeçam uma discussão mais completa desta temática, é pertinente destacar algumas considerações, nem sempre demonstráveis, mas que estimulam interessantes debates.

Conhecido nos meios médicos-científicos como imposição das mãos, à primeira vista singelo gesto, a aplicação do passe envolve um processo complexo de transfusão de energias fisio-psíquicas entre espíritos encarnados e desencarnados.

Correndo o risco de simplificar excessivamente, podemos pensar que a  eficácia da sua aplicação depende, principalmente, do estudo crítico-reflexivo sobre os fatores geradores do adoecimento e da convalescência. No entanto, as repercussões positivas do passe não dependem apenas da compreensão dos efeitos de padrões mentais na geração de doenças. Acrescente-se a isso, o grau de merecimento pessoal subordinado às necessidades de evolução moral. “Se Deus houvesse isentado do trabalho do corpo o homem, seus membros se teriam atrofiado; se o houvesse isentado do trabalho da inteligência, seu espírito teria permanecido na infância, no estado de instinto animal. Por isso é que lhe fez do trabalho uma necessidade e lhe disse: Procura e acharás; trabalha e produzirás. Dessa maneira serás filho das tuas obras, terás delas o mérito e serás recompensado de acordo com o que hajas feito.” (Kardec, Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. 25, item 3)

Prosseguindo nesta direção, a perspectiva teórica que fundamenta a abordagem do Espiritismo reitera, com novos conceitos e categorias, a concepção de homem integral encontrada no Evangelho de Jesus. E, o que é mais importante, na visão espírita o ser humano é composto de corpo físico, perispírito ou corpo espiritual e espírito. Em outras palavras, o homem é um Espírito encarnado em um corpo material. O perispírito é o corpo semimaterial que une o espírito ao corpo material. 

O estado de saúde ou de doença decorre do equilíbrio havido entre esses três princípios essenciais para manutenção da vida. “Se, pois, temos três princípios presentes, estes três princípios devem reagir um sobre o outro, e se seguirá a saúde ou a doença, segundo houver entre eles harmonia perfeita ou desacordo parcial.” (Revista Espírita, Allan Kardec, Outubro, 1868, As Três Causas da Doença).

Concluindo, para haver a verdadeira cura, as causas das doenças provenientes de diferentes fontes devem ser debeladas − sem deixar de prescindir da fé, do merecimento e da vontade−, culminando “pela substituição de uma molécula malsã por uma sã” (Cap. 14, A Gênese). Como se vê, a cura não se dá apenas pelo passe. A razão é simples. “Antes de nos lamentarmos da nossa sorte, perguntemos se ela é a nossa própria obra...”(ESE, Cap. 23, item IV)